Até o início da década de 2000, o Rio Bacacheri era um estorvo na vida de quem morava às suas margens. O fedor, o lixo acumulado e as infestações de ratos e baratas incomodavam a vizinhança. “Não havia coletores-tronco (tubulações centrais que levam os efluentes até a estação de tratamento) no bairro. Ia tudo para o rio”, recorda o militar aposentado Luiz Tadeu Seidel Bernardina, líder comunitário e presidente da Associação dos Moradores do Bacacheri (Assolar). A situação ficou tão preta que, um belo dia, alguém deu a ideia de “entubar” o rio moribundo.
Para evitar um crime ambiental ainda mais grave, Luiz Tadeu iniciou, em 2003, o projeto Amigos do Rio Bacacheri (Amiriba), que acabou virando um exemplo de como envolver a comunidade na defesa do patrimônio natural. Ao buscar parcerias com Ministério Público, prefeitura de Curitiba e Sanepar – que acabou investindo mais de R$ 2 milhões na região –, foi possível desenvolver ações de regularização de esgotos, atividades de educação ambiental e retirada de lixo.
Resultado
A pressão sobre o poder público também deu resultado. Em 2003, havia 63,2% de cobertura de rede de esgoto no Bacacheri. No final de 2007, 92,3% dos efluentes já eram coletados e tratados. Atualmente, até a fauna voltou a fazer parte da paisagem. “O rio era tão poluído que a gente não suportava o cheiro. Hoje tem até peixe”, diz a aposentada Zelma Rodrigues Santos (detalhe na foto ao lado). Porém, ainda há muito a fazer. Na região do bairro Boa Vista, mais acima, a situação não é das melhores. “Já mandei para o MP foto do esgoto jorrando no rio”, conta Luiz Tadeu.
Apesar dos avanços, a comunidade sente que ainda há muito a ser feito. “Pior é a fiscalização. Estamos sempre cuidando, mas demora até detectarmos um problema, contatar as autoridades e eles virem reparar o dano”, explica o comerciante Geraldo Laudario Bastos. Na opinião dele, os moradores precisam participar mais. O lixo nas margens diminuiu bastante, mas continua a gerar transtornos. “Cheguei a brigar com gente que estava jogando animal morto”, revela a dona de casa Rosa Nascimento.
Para Sandra Maria dos Santos Bernardina, conselheira da Assolar, instigar a participação popular é um objetivo de longo prazo. “Não é simples, por isso é preciso fazer um trabalho também nas escolas”, pontua. Neste caso, o projeto contou com o apoio da UniBrasil. De acordo com Larissa De Bortolli Chiamolera Sabbi, coordenadora do curso de Ciências Biológicas, além de realizar palestras, a instituição levou alunos e professores para analisarem a qualidade da água do rio. “Com isso você mostra para a comunidade que o conhecimento pode chegar não só para quem está aqui dentro”, conclui.
