Priscila Forone/Agência de Notícias Gazeta do Povo Gilberto Wizbicki cultiva milho e soja na bacia do Rio Verde
ESPECIAL Águas do Amanhã #3

Agricultura sustentável torna-se realidade

Produtores que vivem na bacia do Rio Verde aprendem a plantar sem destriur o solo e as águas 12/02/2011 20:29:20 JOÃO RODRIGO MARONI

Saiba mais

Renato dos Santos mostra folhas de ginkgo biloba, usada para fins medicinais (Foto: Priscila Forone/AGP)

Se por um lado existem aqueles que ainda não despertaram para a necessidade de preservar o lugar onde vivem, por outro há quem mudou seus hábitos e virou protagonista na exploração sustentável da bacia do Rio Verde. Descendentes de poloneses e morando há gerações na região, a família do agricultor Geraldo Wizbicki é um exemplo disso. Eles encararam o desafio de trocar a tradicional produção de batata por milho e soja, que são culturas menos impactantes, principalmente quando se utiliza técnicas de manejo adequadas, como o plantio direto. Desta forma, o solo não é tão agredido, o que evita a erosão e o assoreamento dos rios.

“Essa transição teve gente que não conseguiu fazer”, confidencia Wizbicki, que esperou quatro anos para que a terra se recuperasse e voltasse a produzir pelo novo sistema. Nos primeiros anos a colheita foi minguada, mas a espera valeu a pena. Atualmente, ele colhe até 90 sacas de soja por hectare. O uso de agrotóxicos continua, porém a quantidade de produto aplicado diminuiu e os intervalos de pulverização aumentaram. Além disso, os agricultores da região não captam mais a água diretamente dos rios, evitando contaminá-los. Resultado: a pesca é farta nos arredores da propriedade.

Wizbicki vê com bons olhos a mudança de atitude de boa parte de seus colegas. “Antigamente éramos inimigos da natureza, hoje somos parceiros. Às vezes, a gente se envergonha de ser agricultor com o que ainda se faz por aí. Mas mudou a mentalidade. Hoje você vê uma queimada e fica pensando o que o cara tá fazendo ali”, comenta.

Racional

Outro que resolveu usar a natureza a seu favor, e de maneira racional, foi o empresário Estefano Dranka. Ele extrai da própria mata nativa plantas medicinais – como espinheira santa, ginkgo biloba e guaco – e depois as manufatura e comercializa. “Antes, a área era tudo roça de milho, batata e feijão e tinha um pouco de gado também. A chuva levava a terra para baixo e a água não infiltrava mais no solo”, conta o produtor. Com a mudança, os custos de manutenção da área diminuíram e, de quebra, ele descobriu um filão de mercado mais rentável.

Ajuda

“Bem conduzido, dá mais dinheiro que qualquer lavoura, e não tem revolvimento do solo, nem agrotóxicos”, explica o engenheiro agrônomo Benno Henrique Weigert Doetzer, coordenador estadual da área de meio ambiente do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). A instituição vem ajudando os produtores da região a explorar a floresta sem devastá-la. “A ideia é que essa alternativa de renda incentive o proprietário a preservar”, esclarece o geógrafo Adair Rech. Para Renato dos Santos (na foto acima), que trabalha e mora na propriedade de Estefano Dranka, a mudança pode ser sentida no ar. “Está mais fresco”, garante. Além disso, a água do poço, que havia secado, voltou. “Hoje a gente só usa a roçadeira. Antes, passávamos a tobata (trator para revirar o solo). Agora basta cuidar, e depois colher”, comemora.

De acordo com Benno Doetzer, infelizmente muita gente ainda insiste em lançar mão de técnicas equivocadas, esgotando o solo, desperdiçando insumos e inviabilizando economicamente o negócio. “Cerca de 20% da bacia precisa ser readequada. São áreas superutilizadas que precisam fazer a reconversão dos sistemas de produção para culturas menos impactantes”, sentencia.