Alberto Custodio/Jornal de Londrina
ESPECIAL Águas do Amanhã #3

Quem, afinal, vai cuidar da água?

"A água 'ainda disponível' virou o 'ouro azul' do século 21 porque, no atual modelo de consumo, o estoque já não é suficiente" 12/02/2011 20:42:31 TERESA URBAN, especial para a Gazeta do Povo

Somos um planeta com quase dois terços de sua superfície cobertos por água, mas dependemos de apenas 0,36% (águas doces). Ainda assim, gastamos mais do que temos disponível, poluímos dez vezes mais do que consumimos, desperdiçamos... Nesse quadro, a água “ainda disponível” virou o “ouro azul” do século 21 porque, no atual modelo de consumo, o estoque já não é suficiente. A canadense Maude Barlow, importante ativista em defesa da água, resume: “A água pertence à Terra, a todas as espécies. É um direito humano fundamental, não uma mercadoria de troca. Deve ser preservada para as futuras gerações. Se for privatizada, quem velará pela natureza? A quem interessará que os animais tenham acesso à água ou que os ecossistemas se nutram adequadamente?”

Um “direito humano fundamental” que está longe de ser tratado como tal. Embora se constatem progressos na regulamentação desse direito – a legislação brasileira, por exemplo, estabelece que a água é um bem público e que a sociedade deve participar de sua gestão –, os esforços para assegurar seu suprimento presente e futuro esbarram em enormes dificuldades.

Em parte, isso decorre da forma como as sociedades humanas trataram a água ao longo da história. Muitos ainda lembram do conceito aprendido na escola: “um líquido insípido, incolor, inodoro e infinito...” De outra parte, da lentidão das decisões governamentais em tomar medidas efetivas de proteção aos recursos hídricos. Decorrem ainda da fragilidade das organizações da sociedade voltadas para o tema. O número de ONGs ambientalistas atuantes no país vem caindo nos últimos anos. De quase mil associações registradas na época da Eco-92, o número caiu para 580. Pouco enraizadas na sociedade, mas com grande capacidade de se fazer ouvir, elas suprem, parcialmente, o papel de defender o bem comum, tentando desesperadamente substituir a omissão do poder público.

Entretanto, a maior dificuldade para assegurar a proteção aos recursos hídricos tem origem na crônica fragmentação do entendimento do modus operandi da natureza. Mesmo com todos os avanços tecno-científicos, a conservação da biodiversidade e sua importância para manter os bens ambientais essenciais à vida ainda são vistos como exageros. Premidas por suas fragilidades e pelos modelos de crescimento econômico a qualquer custo, as ONGs só têm um caminho: ir onde o povo está e informar, falar, explicar, comprovar, mobilizar. Sem conhecimento, a sociedade não se mobiliza; sem essa mobilização, as ONGs apenas ajudam a manter as aparências e a água se transformará em produto raro, caro e pouco acessível.

E como o desolado personagem da história infantil “Os rios morrem de sede”, escrita há quase 30 anos por Wander Piroli, continuamos constatando o desaparecimento dos rios de nossa infância e dizendo para os meninos de hoje que ali, no fundo do quintal, tinha uma nascente, uma sanga, um córrego... Sabemos que a disponibilidade de água não pode virar lembrança, como floresta com araucária, ar puro, verões estáveis, brincadeiras na chuva, frutas com sabor ou cereais não transgênicos. Para a água ser tema do amanhã, a sociedade deve começar a mudar agora.

 

> Teresa Urban é jornalista, ambientalista e autora de Missão (Quase) Impossível: aventuras e desventuras do movimento ambientalista no Brasil (Fundação Peirópolis; 2001), entre outros livros.