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O segundo passo foi dado. Ao reunir representantes da indústria, agronegócio, comércio e serviços na última terça (22 de fevereiro) no Teatro HSBC, em Curitiba, a agenda técnica do projeto Águas do Amanhã avançou mais um pouco na direção de se obter um amplo diagnóstico da bacia do Alto Iguaçu, especialmente em relação à forma como os principais setores da sociedade enxergam a questão da água. Após este fórum e o do setor público, ocorrido em 2010, um encontro com representantes da sociedade civil está marcado para o dia 22 de março e, em maio, haverá o último fórum, reunindo todos os setores.
Apesar de ter sido marcado por poucos debates e pela ausência de propostas coletivas e projetos mais abrangentes por parte de alguns setores, o recente fórum trouxe à tona boas ideias e modelos de gestão dos recursos hídricos por parte de grandes empresas – que, por causa do maior poder econômico, acabam sendo exceções dentro do contexto geral. É o caso de uma Repar (Petrobras) ou de uma Coopavel, só para ficar em duas.
Mobilização
Para o coordenador técnico do projeto Águas do Amanhã, Antonio Ostrensky Neto, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), as iniciativas dos “grandes” são importantes e representam uma forma de começar a mobilizar o setor. “Eles têm de dar o exemplo para a sociedade”, resume. Segundo ele, o fato de empresas-modelo começarem a demandar equipamentos e recursos para a proteção ambiental certamente fará baixar os custos das operações ambientais, criando um cenário para que logo os pequenos empreendimentos também possam se adequar e, posteriormente, sofrerem uma fiscalização mais rígida.
De qualquer forma, para Ostrensky, notou-se que alguns setores ainda não possuem estratégias de longo prazo e suficientemente abrangentes em relação à preservação da água. “Apesar da boa vontade das instituições, nota-se que não há projetos e uma consciência real sobre o problema. O que queríamos mostrar como o fórum era um pouco isso”, reitera.
Veja entrevista em vídeo do professor Antonio Ostrensky durante o segundo Fórum Águas do Amanhã comentando a participação do setor produtivo e a importância de trazê-lo para o debate.
Como muitos leitores pediram mais detalhes sobre o fórum do setor produtivo, preparamos um resumo dos principais momentos. Acompanhe:
9h30 – Após as apresentações iniciais, o secretário estadual de Indústria, Comércio e Assuntos do Mercosul, Ricardo Barros, subiu à tribuna. Ele elogiou a iniciativa do Águas do Amanhã e destacou a importância de as empresas se preocuparem com a água. “Queremos gerar impostos, mas cuidando do meio ambiente”, frisou.
9h45 – Na sequência, o coordenador técnico do Águas do Amanhã, Antonio Ostrensky, fez uma breve introdução aos temas em discussão. “A população, em geral, não tem a percepção de que os maiores consumidores de água estão aqui. Para se produzir um boi, gasta-se 15 mil litros de água”, exemplificou. Segundo ele, fazer um diagnóstico dos setores é fundamental para se definir ações e lembrou que a futura cobrança pelo uso da água bruta pelas empresas é inevitável.
10 horas – Pegando carona em um tema atual, a química e professora da UFPR Maria Cristina Braga deu uma “aula” sobre alagamentos na região metropolitana de Curitiba, tomando como exemplo a bacia do Rio Barigui. Em seu discurso, entre outras coisas, destacou que a gestão correta dos recursos hídricos está associada à valorização econômica deste precioso recurso pela sociedade. “Enquanto não doer no bolso, não se fará nada”, resumiu.
10h30 – Roberto Gava, coordenador do Conselho Temático de Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), tomou a palavra para falar da atuação do setor produtivo, em especial da indústria, em relação à conservação da água. “Não fazíamos nada até pouco tempo atrás, e o que fazemos ainda é pouco”, sentenciou. Ele destacou ainda que o governo não é dono da água, e sim a sociedade. “Setor produtivo e governo devem investir em tecnologia para melhor aproveitar os recursos hídricos”, avaliou.
10h45 – Em seguida, Niazi Ramos Filho, coordenador do Conselho de Ação para Sustentabilidade Empresarial (Casem), ligado à Associação Comercial do Paraná (ACP), elogiou o evento e falou da preocupação da ACP em relação ao meio ambiente. Luiz Carlos Borges da Silva, representante da Federação do Comércio do Paraná (Sistema Fecomercio) subiu ao palco na sequência. “Somos solidários aos movimentos de preservação, não só do Rio Iguaçu. Mas não adianta falar, precisamos agir”, destacou. Ele deu como exemplo de atuação nesse sentido os Senacs de Campo Mourão e Caiobá, cujos prédios possuem sistema de captação de água da chuva, separação de lixo, entre outras iniciativas.
11 horas – A Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), da Petrobras, apresentou a nova planta da estação de tratamento de despejos industriais, que deve consumir investimentos de R$ 100 milhões. A intenção, segundo o gerente da refinaria, James Hahnemann, é diminuir a captação de água na barragem do Rio Verde, em Araucária.
12 horas – Debate. Com a presença de James Hahnemann (Repar) e Carlos Borges (Fecomercio), com mediação da professora Maria Cristina Braga, iniciou-se um debate sobre que ações o setor produtivo poderia implementar para conservar a água.
A discussão esquentou quando Maria Cristina disse que as ações em prol do meio ambiente das grandes empresas – como Petrobras e Itaipu – também são motivadas pelo enorme impacto ambiental que geram e também para manter a boa imagem destas instituições perante a sociedade. Da plateia, representantes de Itaipu protestaram, afirmando que quando a usina foi implantada, há 30 anos, a legislação ambiental era diferente e que hoje tenta-se minimizar o impacto, por exemplo, do enorme lago da hidrelétrica.
Antonio Ostrensky acrescentou que os investimentos da Petrobras na preservação são importantes, mas comentou que muitos postos de combustíveis na região metropolitana geram resíduos que acabam nos rios. Borges, da Fecomercio, por sua vez, lembrou que quem poderia ter mais informações sobre o assunto era o Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis e Minerais de Curitiba (Sindi Combustíveis), que não estava presente no evento. Por outro lado, afirmou que há uma preocupação da federação do comércio em treinar os novos empreendedores para atuar em prol do meio ambiente.
14 horas – À tarde, as palestras foram retomadas, com foco na agricultura e cooperativismo. Representando o secretário estadual da Agricultura e do Abastecimento, Norberto Ortigara, o engenheiro agrônomo José Tarciso Fialho fez uma das melhores apresentações do fórum. Começou mostrando que o Paraná é hoje responsável por 7% da produção agropecuária do país. “Mas isso trouxe problemas, como a má conservação e o uso inadequado do solo”, reconheceu. Ele destacou ainda a diminuição da vegetação natural e a má gestão das águas como consequências ruins da agricultura ao longo de décadas. Mas fez um adendo: “Não dá para comparar a agricultura com a indústria, pois, no Paraná, dependemos muito mais dos recursos naturais.”
Apesar de reconhecer que não há agricultura sem algum grau de agressividade ao meio ambiente, Fialho afirmou que o estado avançou bastante na preservação ambiental, principalmente através da conscientização dos produtores rurais. Alguns incentivos já implantados pelas cooperativas e que podem ser mais bem disseminados, segundo ele, são: pagamento por serviços ambientais, assistência técnica e parcerias institucionais, entre outros.
14h30 – Em seguida, o engenheiro agrônomo e professor Luiz Antonio Lucchesi, da UFPR, apresentou um estudo sobre o uso dos recursos hídricos na agricultura paranaense. Ele destacou alguns problemas – como o manejo inadequado do solo, rebaixamento do lençol freático e contaminação da água por agrotóxicos, entre outros – e assinalou as soluções, entre elas: readequação das estradas, proteção e aumento da cobertura do solo, e proteção de nascentes e rios.
15 horas – Em seguida, foi a vez do superintendente da Organização das Cooperativas do Paraná (Sistema Ocepar), José Roberto Ricken, reforçar o discurso de preservação ambiental aliada à produção agrícola.
Assista à entrevista em vídeo com José Roberto Ricken, da Ocepar, que, entre outras coisas, defende a agricultura sustentável e o combate à poluição nas cidades como prioridade para a despoluição da bacia do Rio Iguaçu.
15h30 – Nos bastidores, o secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná, Jonel Iurk, revelou à reportagem da Gazeta do Povo que o plano estadual de bacias hidrográficas do estado deve ser revisado, aprimorado e lançado em breve. “O plano de bacias define regras, direitos e deveres dos usuários da água. É um dos instrumentos mais importantes de gestão”, explicou. Na opinião do secretário, o ideal seria que o controle sobre a gestão dos recursos hídricos no estado ficasse a cargo dos comitês de bacias, justamente por representarem todos os setores da sociedade.
16h30 – Representando a Coopavel Cooperativa Industrial, de Cascavel, o engenheiro agrônomo e gerente da Universidade Coopavel (Unicoop), Laercio Boschini, apresentou o projeto Água Viva, que já preservou cerca de 5 mil nascentes no Oeste do estado e foi inclusive replicado em outros estados brasileiros e até no Paraguai. Leia mais detalhes sobre o projeto Água Viva.
17h30 – Com a presença de poucos representantes das entidades ligadas ao comércio e indústria, principalmente, o debate programado para a tarde foi cancelado. O coordenador de Recursos Hídricos da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sema), Eduardo Gobbi, tomou a palavra e avaliou o evento e o papel dos setores em relação à água. “Ninguém é inocente ou culpado nesse processo. Acho que esse fórum mostrou isso. Acredito que o papel da Sema é o de orientar a sociedade para a tomada de decisões. Porque o agricultor vai se preocupar, por exemplo, se o governo não tem uma política de preservação”, analisou.
18 horas – Após um rápido discurso do geólogo e diretor de Gestão de Bacias Hidrográficas do Instituto das Águas do Paraná, Everton Souza, a organização do fórum deu por encerrado o evento e lembrou que o próximo encontro será no dia 22 de março, reunindo representantes da sociedade civil, como ONGs, universidades, associações, entre outros.
