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Ocupações começaram nos anos 80
O início da urbanização do Guarituba remete à década de 1950, quando Piraquara tinha apenas 7 mil habitantes e a área onde hoje é o bairro começou a ser loteada. A partir dos anos 80, iniciou-se o processo de ocupação dos lotes – que só aumentou na década seguinte.
Para se ter uma ideia, entre 1991 e 2000, a população de Piraquara cresceu quase 10%, segundo o Ipardes, enquanto a média da região metropolitana de Curitiba foi de 5% no mesmo período. Entre 1992 e 1998, o número de pessoas vivendo em ocupações irregulares na cidade saltou de 648 para 15.536 (aumento de 69,81%).
Atualmente, somente o Guarituba abriga cerca de 56% dos 90 mil habitantes de Piraquara. (JRM)
Aos 19 anos e com dois filhos para criar (um ainda na barriga), a dona de casa Bruna Pereira (foto 1, ao lado) não quer mais viver na margem do Rio Iraí. “Estamos procurando um lugar bom pra morar”, diz a jovem, que há dois anos se mudou para o Guarituba, em Piraquara, na região metropolitana de Curitiba. Apesar dos planos, ela e o marido aumentaram a casa. O banheiro é novo. Tem água encanada, mas não tem esgoto. A fossa no quintal fica ao alcance da criançada. Bruna não nos convida a entrar. “Tá tudo bagunçado”, justifica.
Considerado área de preservação das fontes de água que abastecem a RMC, o Guarituba presenciou ao longo de décadas uma verdadeira explosão de ocupações irregulares, resultado do puro descaso das autoridades. Por outro lado, o bairro hoje abriga o maior projeto de urbanização em áreas de mananciais do país, com recursos de quase R$ 100 milhões do governo federal, incluindo aportes do estado e do município.
Além disso, o projeto vai servir de piloto a diversas entidades públicas. Trata-se de um novo modelo de ação integrada, com obras de drenagem, redes de esgoto e água, luz, urbanização e construção de casas. De acordo com a Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar), quase 9 mil famílias serão beneficiadas, sendo que 803 vão ser removidas de áreas de risco e outras 8.087 vão receber a posse do terreno.
Banhado
Além do impacto ambiental dos esgotos não-tratados lançados nos rios, as cerca de 50 mil pessoas que vivem no Guarituba hoje correm risco durante as cheias. “O solo é turfa, na verdade um grande reservatório de água subterrânea. É um banhado com vegetação rala. Embaixo, em geral, tem areia e água”, explica o engenheiro ambiental Eduardo Gobbi.
Situação, aliás, familiar para Ilda Rocha (foto 4), 60. “Quando chove, tem que sair nadando”, relata a viúva, que mora sozinha em um barraco às margens do canal extravasor do Iraí. Pagou R$ 10 mil pelo terreno, há dois anos. Sem aposentadoria, vive com a ajuda dos filhos. “Tenho depressão, diabetes. Sou levada da breca. Quem me vê assim nem imagina. Só Deus sabe”, desabafa. Ela sonha com uma das 694 casas que vão ser entregues até março de 2011. “Espero sair daqui, só que vai demorar ainda”, lamenta.
Pior para Marlene Gonçalves Carneiro (foto 3), 48, e a filha Marlei de Oliveira, 24, que perderam o cadastramento feito em 2006 e não têm garantia da casa nova. “A gente não dorme, fica pensando tanta coisa”, confessa Marlene. Incômodo maior só mesmo a falta de saneamento. “Construímos uma fossa, mas o cheiro é muito ruim e temos medo por causa das crianças”, diz Marlei.
Há cinco anos morando no Guarituba, Sérgio Luiz Ribeiro de Souza (foto 2), 45, já cansou de ouvir promessas dos políticos. “Depois que termina a eleição, eles viram as costas pra gente”, revolta-se. Ele deve ser retirado de onde mora – o rio passa atrás da casa dele. Ainda assim, o padeiro desempregado está erguendo o segundo piso da residência e reluta em sair. “Estamos acostumados aqui. Às vezes a gente não ‘bate’ com o lugar que vai morar”, argumenta.
