Nelson Penteado Alves/Arquivo pessoal (Pedro Vicente Cobbe) Foto da década de 1930 mostra as instalações da casa de bomba que reforçava o abastecimento da Represa do Carvalho com as águas do Rio Caiguava
ESPECIAL Águas do Amanhã #2

Os segredos da chaminé do Caiguava

A partir da foto de uma casa de bomba, atualmente submersa, pesquisador resgata um pedaço da história do abastecimento de água da RMC 19/09/2010 18:55:30 BRISA TEIXEIRA, ESPECIAL PARA A GAZETA DO POVO

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Hoje em dia, somente a chaminé ainda está visível (Foto: Nelson Penteado Alves/Arquivo pessoal)
O pesquisador e montanhista Nelson Penteado Alves descobriu a verdadeira origem da chaminé (Foto: Daniel Castellano/Agência de Notícias Gazeta do Povo)
As torneiras da Praça Zacarias foram instaladas originalmente em 1871: modernas para a época (Foto: Marcelo Elias/Agência de Notícias Gazeta do Povo)
Em 1908, o Reservatório do Alto São Francisco foi inaugurado: arquitetura magnífica (Foto: Marcelo Elias/Agência de Notícias Gazeta do Povo)
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Evolução

Alguns dos principais fatos históricos que marcaram o abastecimento público de água na região metropolitana de Curitiba

1853 – Curitiba passa a ser a capital da província. Obras de infraestrutura urbana, entre elas o abastecimento público de água, passam a ser necessárias.

1871 – Inaugurado o primeiro chafariz da cidade, ligando o olho d’água da Praça da Misericórdia, atual Praça Rui Barbosa, ao chafariz do Largo da Ponte, hoje Praça Zacarias. Era o que havia de mais moderno e funcional na época, com tubulação de cobre e torneiras (que estão até hoje lá - foto 3) vindas da Europa.

1903 – Sancionada a Lei 506 autorizando a contratação do serviço de abastecimento de água e de coleta e tratamento de esgoto para Curitiba. O volume estimado era de 10 milhões de litros de água por dia para uma população de 50 mil pessoas.

1908 – Inaugurado o Reservatório do Alto São Francisco (foto 4). A água vinha por gravidade, percorrendo 38 quilômetros desde os mananciais na Serra do Mar até o reservatório, onde era armazenada e depois distribuída à população através de 34.838 metros de rede de água e 28 torneiras públicas instaladas em pontos estratégicos da cidade.

1928 – Inauguração do Reservatório Batel e Criação do Departamento de Água e Esgotos (DAE).

1945 – Começa a funcionar a Estação de Tratamento de Água (ETA) Tarumã, a primeira do estado. Também são construídos o Reservatório Cajuru e a barragem de captação do Piraquara. A população era de 240 mil habitantes.

1963 – Criação da Companhia de Água e Esgotos do Paraná (Agepar), que um ano depois viraria Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar).

1969 – Inauguração da ETA Iguaçu, que puxava água dos rios Itaqui e Pequeno para abastecer uma população de 780 mil pessoas em parte das cidades de São José dos Pinhais, Piraquara e Curitiba.

1979 – É construída a Represa do Cayuguava (ou Caiguava), mais conhecida como Reservatório Piraquara I.

1986 – Inauguração da primeira etapa da Barragem Passaúna, com capacidade útil de 48 milhões de m³. A segunda etapa foi concluída em 1993, resultando em uma vazão total de 2 mil litros de água por segundo.

2000 – Lançada a maior barragem do estado, a do Iraí, localizada entre Pinhais, Piraquara e Quatro Barras. Capacidade total: 58 milhões de m³ de água.

2002 – Inaugurada em Pinhais a ETA Iraí – a maior do estado. É capaz de tratar 3,6 mil litros de água por segundo.

2008 – Inaugurada a Barragem Piraquara II. Sua capacidade representa aumento de 8,5% no volume de água ofertado à população da RMC (350 mil pessoas). A capacidade útil da represa é de 21 milhões de m³.

Fonte: Manoel César Santos/Sanepar e Nelson Penteado Alves.

Quem passeia de trem pela Serra do Mar, rumo a Paranaguá, já deve ter visto a comprida chaminé de tijolos que emerge do lago da Represa Caiguava (Piraquara I - foto 1, ao lado), logo depois do Túnel Roça Nova. O misterioso monumento sempre despertou a curiosidade do pesquisador e montanhista paranaense Nelson Luiz Penteado Alves (foto 2), 63 anos, conhecido como Farofa, que até pouco tempo atrás desconhecia a verdadeira história da tal chaminé.

Porém, uma série de coincidências acabou levando este apaixonado pelas montanhas a desvendar um pedacinho da história do abastecimento de água da região metropolitana de Curitiba. Segundo Penteado, muitos ainda acreditam que a chaminé é remanescente de uma antiga olaria ou serraria que teria ficado submersa quando a represa foi criada, em 1978.

Em maio de 2008, porém, o engenheiro agrônomo e professor Roberto Cobbe, sobrinho do lendário aventureiro Rudolf Stamm (1910 – 1959), teve acesso ao livro As Montanhas do Marumbi, de autoria de Penteado, e entrou em contato com o autor. No fim de 2009, Cobbe veio a Curitiba e trouxe uma série de fotografias feitas por seu pai, Pedro Vicente Cobbe, em suas andanças com Stamm pela Serra do Mar no final da década de 1930. Uma das fotos tinha uma anotação esclarecedora: casa de bomba.

Naquele momento, Penteado – que é sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (IHGPR) – recordou de uma de suas aventuras ao lado dos colegas montanhistas pela região do Caiguava nos idos de 1967 – antes da criação da represa, portanto. “Partindo da Serra do Emboque, na tentativa de alcançar o Pico Marumbi seguindo pelas cumeadas (linha formada pelos cumes das montanhas), fomos surpreendidos pelo mau tempo. À noite, batemos em retirada do Pico do Canal rumo à Estação Roça Nova, onde pernoitamos. No caminho, passamos ao pé daquela imensa chaminé, solitária no meio do vale”, lembra Penteado.

Lembrança

Foi a partir desta lembrança que e o pesquisador associou a chaminé ao que restava da antiga casa de bomba, cuja função era elevar as águas do Rio Caiguava, reforçando o abastecimento da Represa do Carvalho, que, por sua vez, armazenava a água consumida em Curitiba até meados do século 20. “Foi um achado e tanto e o ponto de partida para uma entusiasmada pesquisa”, revela Penteado.

De certa forma, a busca para comprovar sua teoria fez o montanhista viajar no tempo e mergulhar em sua própria história, desde os tempos de garoto, quando fazia piqueniques na serra com a família. Além do acervo do IHGPR, ele pesquisou sobre a casa de bombas no Arquivo Público, na Biblioteca Pública do Paraná e, finalmente, na Sanepar – empresa que sucedeu o antigo Departamento de Águas e Esgotos (DAE), então responsável pelo abastecimento da RMC.

Ao todo, foram seis meses de uma intensa busca e o resultado foi além da simples satisfação pelo dever cumprido. “O fato de ter frequentado por mais de 50 anos a Serra do Mar, de ter passado ao pé daquela chaminé e depois ter em mãos as fotos da antiga casa de bomba foi uma descoberta fantástica, que os caminhos do destino colocaram em minhas mãos”, emociona-se.