Spencer Platt/AFP Nova York é um exemplo de cidade que conseguiu resolver os problemas de seus esgotos lançados nas águas da metrópole
ESPECIAL Águas do Amanhã #1

Contaminação da água provoca mortes no mundo

Poluição de bacias e má gestão dos recursos hídricos preocupa a Organização das Nações Unidas. A cada 20 segundos uma criança perde a vida em decorrência da contaminação de rios, lagos, fontes e nascentes 30/05/2010 18:30:02 BRUNO REIS, ESPECIAL PARA A GAZETA DO POVO

Um dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – conjunto de metas global estipulado pela Organização das Nações Unidas para ser alcançado até 2015 – é garantir a sustentabilidade ambiental. Dentro desse item, um dos alvos prioritários é reduzir pela metade a proporção de pessoas sem acesso permanente e sustentável a água potável segura e esgotamento sanitário. Tarefa complicada, diga-se de passagem.

No Brasil, a situação requer atenção. Mesmo cidades como Manaus, com recursos hídricos – mesmo em época de seca – suficientes para abastecer cerca de 20 milhões de habitantes (a cidade tem hoje só um décimo dessa população) tem sérios problemas para levar água de boa qualidade às pessoas.

Para o especialista em recursos hídricos Sanderson Leitão, membro da Comissão Brasileira do Programa Hidrológico Internacional (Cobraphi/Unesco), o caso de Manaus evidencia a essência do problema. “Quase sempre a dificuldade não é a falta de água, mas a gestão dela, que só pode ser feita adequadamente levando-se em conta fatores como o saneamento e a ocupação consciente do solo”, explica. Com o esgoto urbano correndo diretamente para os mananciais das cidades, limita-se a disponibilidade de água.

As ocupações irregulares, por sua vez, também dificultam o controle do esgoto, que geralmente segue para os rios mais próximos. É o caso de Manaus e de praticamente todos os grandes centros urbanos no Brasil – como Curitiba. A poluição da água, inclusive, já está provocando problemas maiores. Segundo um recente relatório da ONU intitulado Água Doente, mais pessoas morrem hoje por problemas com água contaminada do que por todas as formas de violência, incluindo guerras. Segundo o mesmo relatório, 2 bilhões de toneladas de resíduos são jogadas anualmente em águas de todo o mundo.

“O planeta já está perto do limite, se é que já não passou dele em alguns casos. No entanto, sou otimista e acredito que a sociedade pode mudar esse cenário”, desabafa o subsecretário geral da ONU e diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) Achim Steiner, que conversou por e-mail com a Gazeta do Povo. O economista alemão (nascido no Brasil) é hoje um dos especialistas mais ativos no mundo quando o assunto é sustentabilidade.

Exemplos

Por outro lado, não faltam bons exemplos do uso correto dos recursos hídricos. Nova York é um desses exemplos. Atualmente, a quantidade de esgoto não tratado lançado nas águas da cidade é praticamente zero. Os rios se limparam com o tempo e hoje é possível até pescar no Rio Hudson. Em relação ao abastecimento, ao invés da cidade gastar entre R$ 4 e R$ 6 bilhões com produtos químicos para a filtragem e com o transporte da água, a metrópole de quase 20 milhões de habitantes decidiu gastar apenas R$ 1 bilhão, reduzindo a poluição nos mananciais. “Em outras palavras, foi mais barato trabalhar com a natureza do que contra ela”, conclui Steiner.