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CRONOLOGIA
O primeiro registro de navegação pelo Iguaçu é do explorador espanhol Álvar Nuñes “Cabeza de Vaca”, que chegou até as Cataratas em 1542. Mas o povoamento no interior do estado só iria acontecer séculos depois, graças aos tropeiros que levavam o gado até o interior de São Paulo.
Já nesse período, o rio passou a ser utilizado – em pequenas viagens – no transporte do sal para o gado de Palmas e Guarapuava. A erva-mate começou a ser cultivada e enviada em carroções até os engenhos de Curitiba por volta de 1850. A demora e a baixa capacidade desse meio de transporte fez com que o fazendeiro Amazonas Marcondes Filho fosse ao Rio de Janeiro, onde conseguiu uma licença para explorar comercialmente a navegação no Iguaçu.
Na então capital federal, Amazonas comprou um vapor e seguiu com ele por mar até Morretes. Depois de desmontado, o barco subiu a serra em 11 carroções até o início do trecho navegável do Iguaçu, onde hoje fica a cidade que leva o nome do pioneiro da navegação fluvial no estado. Em dezembro de 1882, o vapor Cruzeiro estava pronto para partir em sua primeira viagem.
A primeira impressão que se tem ao chegar em Porto Amazonas é que não se chegou em Porto Amazonas. A cidade surge de repente, singela, e quase pede licença para se apresentar. Difícil imaginar que, há 60 anos, vapores ancoravam ali todos os dias cheios de erva-mate e madeira para carregar o trem que seguia a Curitiba. Não há mais vapores, nem estação de trem.
Perguntando, é fácil encontrar os poucos moradores que ainda guardam na memória as histórias da navegação no Iguaçu. Ao bater de palmas, aparecem logo à frente olhares profundos, marcados pelas lembranças do tempo em que a cidade – de tão próspera – contava com três padarias!
“As ruas ficavam cheias de madeira, a cidade não parava”, lembra Octávio Melo, 80. Durante dois anos, esse senhor viveu em uma das muitas casas flutuantes do Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis (DNPVN), que podiam ser avistadas a cada 30 quilômetros no rio. O trabalho pesado envolvia retirar os tocos de madeira que se desprendiam das margens e mergulhar com um escafandro para limpar o fundo do leito: única forma de evitar que os vapores encalhassem nos bancos de areia.
A maior dificuldade, no entanto, era depender do governo da época para receber o salário. Assim como o rio, o dinheiro estiava durante parte do ano. “O pagamento chegou a atrasar seis meses e eu tinha que me virar trabalhando nas fazendas”, desabafa Melo. Uma rotina parecida com a dos primeiros marinheiros do Iguaçu.
Dificuldades
De acordo com Arnoldo Monteiro Bach, professor de literatura e um aficionado por história, esta foi uma das maiores dificuldades logo no início da navegação no Iguaçu, ainda no final do século 19. “Era muito difícil encontrar mão de obra qualificada para operar os vapores. E mesmo quando isso acontecia, os trabalhadores não podiam ficar os meses de estiagem sem trabalhar. Por isso, eles seguiam para as fazendas e serrarias e não voltavam mais”, explica Bach, autor de Vapores (Editora UEPG), um dos livros mais completos sobre a navegação no Iguaçu.
Com o objetivo de povoar as margens e garantir a mão de obra, foram criadas colônias federais. “Todas ao lado direito do rio, já prevendo uma eventual disputa de território com Santa Catarina”, explica o professor. A imigração também foi incentivada e das mãos de ucranianos, poloneses e alemães começaram a surgir novas cidades.
Em 1915, uma grande empresa de navegação foi criada por uma união de madeireiros. O Lloyd Paranaense passaria a contratar funcionários por todo o ano, construiria os novos vapores e, mais importante, padronizaria preços e horários. Começava a época de ouro da navegação no Iguaçu, que chegou a ter mais de 40 vapores em operação. Quase sempre rio acima com madeira e erva-mate para descarregar em Porto Amazonas e rio abaixo com os produtos e alimentos que abasteciam as novas cidades e povoados que começavam a se desenvolver.
Quem vivia próximo ao rio já reconhecia as embarcações pelo silvo. O que mais atraía multidões era o vapor Leão, o maior a navegar pelas águas do Iguaçu. Com peças importadas da Alemanha e fabricado em parceria com o Lloyd, era a maneira mais luxuosa de viajar do interior do estado para Porto Amazonas e seguir viagem a Curitiba.
E foi esse apito dos vapores que deu o tom do desenvolvimento ao longo dos cerca de 350 quilômetros navegáveis do rio. A grande movimentação de mercadorias fez o governo federal estabelecer o DNPVN na região, garantindo que o rio permanecesse navegável mesmo durante as secas.
