Aniele Nascimento/Agência de Notícias Gazeta do Povo O lixo que se acumula nas margens é a parte mais visível dos problemas enfrentados pelo Iguaçu na região metropolitana de Curitiba
ESPECIAL Águas do Amanhã #1

Trecho inicial do Iguaçu vira "esgoto a céu aberto"

Por conta dos resíduos domésticos, a qualidade das águas do Iguaçu – no trecho que corta Curitiba – está entre as piores do Brasil 30/05/2010 19:35:44 JOÃO RODRIGO MARONI

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Consumo exagerado

Além da poluição de rios e mananciais, a bacia do Alto Iguaçu enfrenta o desafio da demanda de água. Veja alguns números do consumo urbano e do setor produtivo:

70%
da água é usada pela agricultura e pecuária, outros 20% vai para a indústria e apenas 10% são para o abastecimento doméstico. Esses parâmetros são mundial, de acordo com José Roberto Borghetti. No entanto, são os esgotos domésticos que mais poluem.

637 litros
por ligação ao dia foi o consumo médio de água tratada somente em Curitiba durante o ano de 2009. Incluindo a Grande Curitiba, a média cai para 540 litros/ligação/dia. Os dados são da Sanepar.

Apesar de não fazer um ranqueamento formal, a Agência Nacional de Águas (ANA) aponta o Rio Iguaçu – ao menos no trecho em que ele corta Curitiba – como um dos mais poluídos do Brasil. Um problema antigo que tem origem ainda nos primeiros povoamentos e que só foi piorando ao longo dos anos, principalmente com o aumento da população e o lançamento clandestino de esgotos e lixo no rio. Um problema que hoje compromete inclusive nossas fontes de águas, que estão justamente ao redor da bacia do Alto Iguaçu.

“Todo esse povoamento que está na região metropolitana de Curitiba está em cima das nascentes do Iguaçu. Então, o problema maior é o esgoto, a carga orgânica que vai para a água. Mas essa é uma das fontes. Se Curitiba não é uma cidade tão industrial, a gente tem, por exemplo, Araucária, que tem um monte de indústrias, na região do Rio Barigui que, mais para a frente, desemboca no Iguaçu. Ao longo de toda essa nascente, perto de São José dos Pinhais, tem também ocupações irregulares. Do lado, tem cavas e mais cavas de areia. Tudo isso gera um impacto que vai afetar o rio”, resume o oceanólogo Antonio Ostrensky Neto, coordenador-geral do Grupo Integrado de Aquicultura e Meio Ambiente (GIA), ligado à Universidade Federal do Paraná. Ele destaca ainda a pequena vazão dos rios como um fator agravante na dispersão desses poluentes.

Degradação

O engenheiro ambiental Eduardo Gobbi, por sua vez, explica que a natureza tem processos de degradação natural do esgoto, mas, para isso, as bactérias usam o oxigênio dissolvido no rio, o que impossibilita, por exemplo, ter peixes no Alto Iguaçu. Além disso, existe outro problemão: o material orgânico se dissolve em nutrientes – principalmente fósforo e nitrogênio. “Esses elementos estão nos alimentos que a gente come e depois elimina. Eles acabam virando alimento para as algas. E como temos uma sequência de reservatórios no rio Iguaçu, onde a água fica mais parada, esses nutrientes levam à proliferação das algas, o que leva novamente ao consumo excessivo de oxigênio. E essas algas também podem liberar toxinas prejudiciais ao ser humano”, explica.

“Alguns desses rios ainda têm boa qualidade, mas a grande maioria tem águas de péssima qualidade, onde a demanda bioquímica de oxigênio é altamente elevada – acima de 25 ppm (partes por milhão). O ideal seria estar abaixo de 8 ou 7 ppm. Então como é que nós podemos falar em Capital Ecológica se o que classifica um ambiente saudável é a qualidade do complexo de bacias e sub-bacias hidrográficas? Temos uma dívida ambiental muito grande. Curitiba se beneficia da água que está no seu entorno. Polui essa água e a devolve num estado ruim. Não é um modelo legal de sociedade”, critica o biólogo José Roberto Borghetti. Na opinião dele, os problemas só não foram resolvidos ainda porque não se criou uma força-tarefa conjunta capaz de organizar as ideias, equilibrar os diferentes interesses e propor soluções que beneficiem a todos.