Jonathan Campos/Agência de Notícias Gazeta do Povo Encontro dos rios Belém e Iguaçu, em Curitiba. Poluição forma "praia" de sedimentos e lixo, muito lixo.
ESPECIAL: ÁGUAS DO AMANHÃ #4

Expedição mostra que o Rio Iguaçu renasce longe de Curitiba

Como se fosse uma estação de tratamento natural, suas águas são capazes de se renovar. Mas, segundo especialistas, este processo não vai durar para sempre 28/04/2011 16:15:06 JOÃO RODRIGO MARONI

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Peixes mortos, lixo e restos de matéria orgânica recolhidos do rio na ETE Cachoeira, da Sanepar. Foto: Jonathan Campos/AGP
Muito lixo na água entre Curitiba e Araucária. Foto: Jonathan Campos/AGP
Máquina de lavar integra a paisagem do trecho mais poluído do Rio Iguaçu. Foto: Jonathan Campos/AGP
Televisores descartados nas margens do Iguaçu: cena comum. Foto: Jonathan Campos/AGP
A equipe de técnicos e jornalistas percorreu o Iguaçu, começando pelo trecho mais poluído, entre Curitiba e Araucária. Foto: Jonathan Campos/AGP
Encontro dos rios Belém e Iguaçu, em Curitiba. Sedimentos e lixo formam uma espécie de ilha. Foto: Jonathan Campos/AGP
Garças, urubus, melancias, galhos de árvore... Paisagens do Rio Iguaçu no trecho "curitibano". Foto: Jonathan Campos/AGP
Em Porto Amazonas, começa o trecho de corredeiras, ideal para a prática do rafting. Foto: Jonathan Campos/AGP
Lixo e natureza "integrados" pela ação do homem. Foto: Jonathan Campos/AGP
Detalhe das rochas nas margens do Iguaçu próximo ao Salto Caiacanga. Foto: Jonathan Campos/AGP
Nelson Gonçalves, um dos responsáveis pelo resgate do Tibagi, montou um altar para a santa no barco. Foto: Jonathan Campos/AGP
Algumas quedas apresentam um bom grau de dificultade para os aventureiros. Foto: Jonathan Campos/AGP
Patrícia de Lima e Diogo Hungria, da UFPR, coletam água para análise em Vila Palmira. Foto: Jonathan Campos/AGP
Restaurado, o vapor Poty virou monumento no Parque Iguaçu, em São Mateus do Sul. Foto: Jonathan Campos/AGP
Na localidade de Fartura do Potinga, em São Mateus do Sul, colocamos o barco na água. Foto: Jonathan Campos/AGP
Trecho do Rio Iguaçu em Fartura do Potinga. Na margem oposta fica Canoinhas (SC). Foto: Jonathan Campos/AGP
Palafita às margens do Rio Negro, em SC, afluente do Iguaçu. Foto: Jonathan Campos/AGP
Cascata no lago da usina de Segredo encantou os jornalistas. Foto: Jonathan Campos/AGP
Peixes reproduzidos no laboratório da usina de Segredo. Foto: Jonathan Campos/AGP
Cena do museu que fica na hidrelétrica de Segredo, mantida pela Copel. Foto: Jonathan Campos/AGP
Na estrada, entre Mangueirinha e Dois Vizinhos. Foto: Jonathan Campos/AGP
Moradores de Barra do Sarandi pescam às margens do Iguaçu. Foto: Jonathan Campos/AGP
Fim de tarde navegando no Rio Santo Antonio, que divide o Brasil da Argentina. Foto: Jonathan Campos/AGP
Salto da Vaca Branca, visto do mirante em Capanema, próximo ao Parque Nacional do Iguaçu. Foto: Jonathan Campos/AGP
Cataratas do Iguaçu, em Foz. Ponto final da expedição. Foto: Jonathan Campos/AGP
Rio Iguaçu, próximo à foz no Rio Paraná. Foto: Jonathan Campos/AGP
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O Rio Iguaçu mostra um incrível poder de renovação, eliminando ao longo de seu trajeto boa parte do esgoto e do lixo gerados na região metropolitana de Curitiba. Porém, isso não significa que devemos abandoná-lo à própria sorte. A natureza tem limites e as consequências podem ser desastrosas. Esta é a principal lição aprendida pelos jornalistas da Gazeta do Povo e da RPC TV que participaram da expedição ao Iguaçu, que aconteceu entre os dias 10 e 15 de abril (veja vídeo).

Com base em análises de água feitas por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) ao longo do percurso, entre Curitiba e Foz, percebe-se que os parâmetros vão melhorando conforme nos afastamos da capital (veja infográfico). Nesse sentido, o rio parece uma estação de tratamento natural. Depois de passar por corredeiras, hidrelétricas e áreas de remanso, o Iguaçu recebe o aporte de água outros cursos fluviais e fica mais volumoso. Estes obstáculos – naturais ou não – o tornam mais limpo.

Mas a informação pode levar a uma conclusão precipitada, de que não é preciso fazer nada a respeito. “Na natureza, existe uma coisa que é a capacidade do ambiente de voltar à condição normal. Isso ocorre até um determinado ponto, depois não volta mais. É como um galho de árvore que você torce e ele volta ao normal, mas chega uma altura em que vai quebrar. Por enquanto, o rio está se recuperando, mas não sei se na região metropolitana o ‘galho’ já não arrebentou”, compara Antonio Ostrensky, oceanólogo e professor da UFPR.

Dinâmica

O buraco na camada de ozônio e o aquecimento global são exemplos dessa dinâmica da natureza, segundo Ostrensky. Durante anos eles foram ignorados pelo ser humano e hoje sentimos os efeitos. Em relação a ambientes aquáticos, ele lembra também o caso do Rio Hudson, nos Estados Unidos, que, mesmo após 15 anos sem receber esgotos, ainda não é possível consumir peixes de suas águas, sob risco de contaminação.

E por falar em peixes, encontrar uma diversidade de espécies hoje no Iguaçu é fato raro, principalmente no trecho próximo à capital. “Como regra geral, eu precisaria ter ao menos 50% de saturação de oxigênio para garantir a sobrevivência da maior parte dos peixes. Vemos que a maioria destes pontos na RMC não reúne condições mínimas para suportar a fauna que deveria existir ali”, argumenta Ostrensky.

Além de provocar mudanças em cadeia no meio ambiente, a poluição de um rio (que muitas vezes serve como fonte de água para o abastecimento público – caso do Iguaçu) torna o processo de descontaminação da bacia hidrográfica cada vez mais caro. Ostrensky cita, por exemplo, o Rio Tietê, em São Paulo, onde foram gastos R$ 1,5 bilhão para despoluí-lo. Em 1995, 80% do esgoto in natura era jogado no rio; hoje é apenas 10%. Já na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, o custo estimado para descontaminá-la chega a R$ 50 milhões por quilômetro quadrado.

Autodepuração

No caso do Rio Iguaçu, seu processo de autodepuração começa ainda em Curitiba. A correnteza arrasta para as margens o lixo que está na água. No entanto, as impurezas dissolvidas seguem adiante. “Os parâmetros que o equipamento lê vão melhorando, mas os produtos diluídos podem estar indo parar nas Cataratas”, observa o biólogo Diogo Hungria, da UFPR.

Na região de Porto Amazonas, nos Campos Gerais, as corredeiras proporcionam uma importante etapa da recuperação do rio, fazendo a oxigenação das águas. Na sequência, o trecho de corrente mais lenta, no Sul do estado, permite que a matéria orgânica e inorgânica em suspensão na água decante lentamente. Processo que se intensifica mais adiante, quando o rio passa pelos lagos das hidrelétricas.

Para Ostrensky, deixar somente na mão da natureza recuperar o que poluímos é arriscado demais. A saída, segundo ele, passa pela mobilização da sociedade através da educação e da informação, que nos permite cobrar das autoridades atitudes nesse sentido. “O governo sabe de tudo o que acontece com o rio, mas não haverá mudança se isso depender apenas das pessoas que estão lá”, observa.

Para piorar, segundo o especialista, a tendência é que as cidades ao longo do rio também cresçam, aumentando a carga poluidora que vem da RMC. “Essa pressão sobre o rio vai ser cada vez maior. O grande 'pepino', na minha opinião, é que as pessoas não se vêem como agendes causadores do problemas, mas apenas como vítimas”, conclui.

 

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ADEUS, POLUIÇÃO!

Conforme indicam os parâmetros analisados, o Iguaçu vai ficando mais limpo ao longo de seu trajeto. Os dados mostram que isso ocorre graças a uma sequência tanto de obstáculos naturais (corredeiras, remansos e aporte de água de outros rios) quanto artificiais, como os reservatórios das usinas.

ENTENDA A EXPEDIÇÃO

Entre os dias 10 e 15 de abril, um grupo de jornalistas da Gazeta do Povo e da RPC TV percorreu – de carro e de barco – alguns dos principais trechos do Rio Iguaçu, entre Curitiba e Foz. Em apenas seis dias, a equipe rodou 2,3 mil quilômetros coletando informações técnicas e observando o impacto socioambiental do mais importante curso fluvial do estado. ASSISTA AO VÍDEO ABAIXO ou LEIA A MATÉRIA COMPLETA...