Saiba mais
O Rio Iguaçu mostra um incrível poder de renovação, eliminando ao longo de seu trajeto boa parte do esgoto e do lixo gerados na região metropolitana de Curitiba. Porém, isso não significa que devemos abandoná-lo à própria sorte. A natureza tem limites e as consequências podem ser desastrosas. Esta é a principal lição aprendida pelos jornalistas da Gazeta do Povo e da RPC TV que participaram da expedição ao Iguaçu, que aconteceu entre os dias 10 e 15 de abril (veja vídeo).
Com base em análises de água feitas por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) ao longo do percurso, entre Curitiba e Foz, percebe-se que os parâmetros vão melhorando conforme nos afastamos da capital (veja infográfico). Nesse sentido, o rio parece uma estação de tratamento natural. Depois de passar por corredeiras, hidrelétricas e áreas de remanso, o Iguaçu recebe o aporte de água outros cursos fluviais e fica mais volumoso. Estes obstáculos – naturais ou não – o tornam mais limpo.
Mas a informação pode levar a uma conclusão precipitada, de que não é preciso fazer nada a respeito. “Na natureza, existe uma coisa que é a capacidade do ambiente de voltar à condição normal. Isso ocorre até um determinado ponto, depois não volta mais. É como um galho de árvore que você torce e ele volta ao normal, mas chega uma altura em que vai quebrar. Por enquanto, o rio está se recuperando, mas não sei se na região metropolitana o ‘galho’ já não arrebentou”, compara Antonio Ostrensky, oceanólogo e professor da UFPR.
Dinâmica
O buraco na camada de ozônio e o aquecimento global são exemplos dessa dinâmica da natureza, segundo Ostrensky. Durante anos eles foram ignorados pelo ser humano e hoje sentimos os efeitos. Em relação a ambientes aquáticos, ele lembra também o caso do Rio Hudson, nos Estados Unidos, que, mesmo após 15 anos sem receber esgotos, ainda não é possível consumir peixes de suas águas, sob risco de contaminação.
E por falar em peixes, encontrar uma diversidade de espécies hoje no Iguaçu é fato raro, principalmente no trecho próximo à capital. “Como regra geral, eu precisaria ter ao menos 50% de saturação de oxigênio para garantir a sobrevivência da maior parte dos peixes. Vemos que a maioria destes pontos na RMC não reúne condições mínimas para suportar a fauna que deveria existir ali”, argumenta Ostrensky.
Além de provocar mudanças em cadeia no meio ambiente, a poluição de um rio (que muitas vezes serve como fonte de água para o abastecimento público – caso do Iguaçu) torna o processo de descontaminação da bacia hidrográfica cada vez mais caro. Ostrensky cita, por exemplo, o Rio Tietê, em São Paulo, onde foram gastos R$ 1,5 bilhão para despoluí-lo. Em 1995, 80% do esgoto in natura era jogado no rio; hoje é apenas 10%. Já na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, o custo estimado para descontaminá-la chega a R$ 50 milhões por quilômetro quadrado.
Autodepuração
No caso do Rio Iguaçu, seu processo de autodepuração começa ainda em Curitiba. A correnteza arrasta para as margens o lixo que está na água. No entanto, as impurezas dissolvidas seguem adiante. “Os parâmetros que o equipamento lê vão melhorando, mas os produtos diluídos podem estar indo parar nas Cataratas”, observa o biólogo Diogo Hungria, da UFPR.
Na região de Porto Amazonas, nos Campos Gerais, as corredeiras proporcionam uma importante etapa da recuperação do rio, fazendo a oxigenação das águas. Na sequência, o trecho de corrente mais lenta, no Sul do estado, permite que a matéria orgânica e inorgânica em suspensão na água decante lentamente. Processo que se intensifica mais adiante, quando o rio passa pelos lagos das hidrelétricas.
Para Ostrensky, deixar somente na mão da natureza recuperar o que poluímos é arriscado demais. A saída, segundo ele, passa pela mobilização da sociedade através da educação e da informação, que nos permite cobrar das autoridades atitudes nesse sentido. “O governo sabe de tudo o que acontece com o rio, mas não haverá mudança se isso depender apenas das pessoas que estão lá”, observa.
Para piorar, segundo o especialista, a tendência é que as cidades ao longo do rio também cresçam, aumentando a carga poluidora que vem da RMC. “Essa pressão sobre o rio vai ser cada vez maior. O grande 'pepino', na minha opinião, é que as pessoas não se vêem como agendes causadores do problemas, mas apenas como vítimas”, conclui.
COMUNIDADE: CADASTRE-SE E COMENTE OS RESULTADOS DA EXPEDIÇÃO
ADEUS, POLUIÇÃO!
Conforme indicam os parâmetros analisados, o Iguaçu vai ficando mais limpo ao longo de seu trajeto. Os dados mostram que isso ocorre graças a uma sequência tanto de obstáculos naturais (corredeiras, remansos e aporte de água de outros rios) quanto artificiais, como os reservatórios das usinas.
ENTENDA A EXPEDIÇÃO
Entre os dias 10 e 15 de abril, um grupo de jornalistas da Gazeta do Povo e da RPC TV percorreu – de carro e de barco – alguns dos principais trechos do Rio Iguaçu, entre Curitiba e Foz. Em apenas seis dias, a equipe rodou 2,3 mil quilômetros coletando informações técnicas e observando o impacto socioambiental do mais importante curso fluvial do estado. ASSISTA AO VÍDEO ABAIXO ou LEIA A MATÉRIA COMPLETA...
