Jonathan Campos/Agência de Notícias Gazeta do Povo Até brinquedos estão entre os objetos jogados no Rio Iguaçu, entre Curitiba e Araucária
OPINIÃO

O "paciente" está à espera de tratamento

Coordenador técnico do projeto Águas do Amanhã analisa as condições do Rio Iguaçu com base nos dados levantados pela expedição 30/04/2011 03:59:43 ANTONIO OSTRENSKY

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Antonio Ostrensky, coordenador do projeto Águas do Amanhã. Foto: Priscila Forone/AGP

Imagine a visão deslumbrante das Cataratas do Iguaçu, com suas águas abundantes, com todo aquele spray que se dispersa pelo ar, refrescando os turistas nas calorentas passarelas que dão acesso às quedas d’água...

Imagine agora um mar de lixo caindo sem parar por essas quedas. Sacos plásticos, garrafas PET, pneus e até sofás, tudo sendo carregado por águas negras, fedendo a esgoto. Se a visão parece ser irreal e nojenta, saiba que essa é justamente a situação em que o Rio Iguaçu se encontra hoje na região metropolitana de Curitiba.

Nossa expedição começou em um verdadeiro paraíso ecológico, em Piraquara, a apenas 23 km de Curitiba, e terminou na tríplice fronteira, 23 km depois de outro paraíso ecológico: as famosas Cataratas do Iguaçu.

As análises mostraram que as águas do rio nascem limpas, frias e tão cristalinas que podem ser utilizadas para o cultivo de trutas, uma espécie de peixe que morre ao menor sinal de poluição e de falta de oxigênio.

Mas a tranquilidade do Iguaçu termina por aí. Poucos quilômetros adiante, quando essas mesmas águas passam por áreas densamente habitadas, com um número absurdo de ocupações irregulares, com inúmeros pontos de lançamento de esgotos e muito, mas muito lixo, parece que estamos percorrendo um rio completamente morto.

Enquanto a grande maioria das espécies de peixes necessita de pelo menos 5 miligramas de oxigênio por litro de água para viver, no trecho metropolitano do Iguaçu as concentrações raramente atingem 3 miligramas por litro.

Ao chegar às corredeiras de Porto Amazonas, as quedas d’água criam condições para que o oxigênio volte às águas do rio. O oxigênio, por sua vez, possibilita a existência de determinadas bactérias que decompõe grande parte dos esgotos e do material orgânico jogado nas águas do rio.

Além disso, conforme vai seguindo seu curso, mais rios vão desaguando no Iguaçu, diluindo os poluentes e fazendo com que a qualidade da água melhore – mas apenas de modo parcial. Muitas das substâncias presentes nos esgotos e efluentes dissolvidos nessas águas continuarão nelas até a foz do Rio Iguaçu. Ou melhor, muito além dela, primeiramente no Rio Paraná, depois no Rio da Prata e, por fim, no mar, onde serão lançadas.

O resultado final dessa expedição indica que o paciente (o Rio Iguaçu) está doente. E, como acontece com qualquer doente, é fundamental que o tratamento comece a ser ministrado o mais cedo possível, antes que a doença se espalhe, o paciente piore e chegue a um estado terminal.

População, Ministério Público, governantes... Já passou da hora de agirmos.

 

>Antonio Ostrensky é oceanólogo, coordenador técnico do Águas do Amanhã e coordenador do Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais da Universidade Federal do Paraná.

 

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