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Situação no Belém é crítica
Para facilitar os deslocamentos e aproveitar melhor o tempo, a expedição percorreu primeiramente o trecho entre a ETE Cachoeira e Guajuvira.
À tarde, retornamos a Curitiba para remar outros três quilômetros no Iguaçu, entre a Avenida das Torres e a Marechal Floriano, em um ponto anterior ao que havíamos navegado pela manhã. Neste pedaço, o canal fluvial é mais raso, normalmente mais fétido e menos convidativo.
Como havia chovido, o cheiro não era tão forte. Mas a cor da água era mais escura e piorou quando chegamos na foz do Rio Belém – que atravessa o Centro e alguns bairros populosos de Curitiba. No encontro dos rios forma-se uma “praia” de lodo e lixo. Tal como em Guajuvira, a vegetação lembra árvores de Natal, com enfeites de sacolas plásticas e entulho.
Na margem oposta à saída do Belém, a força da água está derrubando o barranco, levando árvores e terra para dentro do Iguaçu. “A natureza tem uma capacidade de recuperação incrível, mas não foi feita para suportar essa carga toda”, conclui Diogo Hungria, biólogo da UFPR.
Nossa expedição pelo Iguaçu começou cedo. Às 7h30 do dia 10 de abril, o grupo de jornalistas da Gazeta do Povo e da RPC TV, guias e técnicos da Universidade Federal do Paraná (UFPR) se reuniu na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Cachoeira, da Sanepar, em Araucária, na região metropolitana de Curitiba. O tempo nublado não animava ninguém a colocar o barco na água e encarar o trecho mais poluído do Rio Iguaçu, entre a capital e Guajuvira, distrito de Araucária. São quase 20 km de muita sujeira, lixo e poluição.
Antes, porém, um fato curioso chamou nossa atenção. Centenas de peixes abarrotavam as comportas da estação atraídos pela grande quantidade de nutrientes na água (leia-se poluição). Os animais nadavam bem próximos à superfície. “A chuva levanta o material do fundo do rio. Essa matéria orgânica queima o oxigênio da água e os peixes ficam sem ele”, explica o biólogo Diogo Hungria. Resumindo, peixes à vista significa pouco oxigênio na água. Cena que dali em diante se tornaria comum. “Eles estão competindo por comida e oxigênio. Além disso, ficam estressados e, com o passar do tempo, morrem”, observa a mestre em Bioecologia Aquática Patrícia de Lima.
Medição
Enquanto a equipe de apoio inflava o bote, os pesquisadores da UFPR colocavam o equipamento de análise de água no rio. Entre os parâmetros avaliados, destacou-se o nível de oxigênio dissolvido, que, como esperado, é baixíssimo naquele ponto – 2,57 miligramas por litro (mg/l), enquanto o ideal seria entre 5 e 8 mg/l. A condutividade elétrica, fator que mostra a quantidade de matéria dissolvida na água, estava 113% acima do normal. Restos de plástico, lâmpadas e peixes mortos compunham o cenário ao redor.
Às 8h45, iniciamos a navegação. Mais adiante, a sonda mergulha novamente, só que mais fundo. “Lá embaixo tem mais matéria orgânica e menos luz, portanto há menos oxigênio”, ensina Hungria. Enquanto navegamos, notamos trechos sem vegetação e outros com construções muito próximas do rio.
Na altura da Rodovia do Xisto, o Iguaçu começa a nos brindar com cenas contrastantes. O lixo acumulado em galhos de árvores e na água forma um contraponto à beleza dos voos rasantes das garças sobre a água, tentando apanhar os poucos peixes que sobrevivem ali. Nadando próximos à superfície, viram presas fáceis para as aves. Segundo os biólogos, só é possível ver tantas garças juntas por causa do alimento farto. Um sinal de desequilíbrio ecológico, já que este não é o comportamento normal delas.
Indescritível
Próximo a Guajuvira, desembarcamos na margem esquerda. Entre o leito do rio e uma lagoa próxima, o lixo acumulado mistura-se ao lodo e a restos de plantas formando um cenário indescritível. Conforme caminhamos sobre o lamaçal, é possível sentir plásticos e outros resíduos enterrados rangerem sob os pés. A mistura de matéria orgânica e sólidos em decomposição faz pensar que tipo de substâncias tóxicas podem estar sendo geradas ali, contaminando tudo. Detalhe: o número de televisores no local é impressionante.
Como se não bastasse, ao longo da navegação, nos deparamos com geladeiras, fogões, máquinas de lavar, peças de automóveis, madeiras, brinquedos, roupas, garrafas PET, sacolas plásticas, lâmpadas, janelas e muito mais. Tudo descartado no rio, que gentilmente empurra para as margens o entulho. Ao olhar os resultados das análises, Patrícia de Lima explica que houve pouca variação na qualidade do rio. “Este é praticamente o lixão da região metropolitana de Curitiba”, resume Diogo Hungria, pouco antes de desembarcamos em Guajuvira.
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VÍDEO MOSTRA "ILHA DE LIXO" EM ARAUCÁRIA
FOZ DO RIO BELÉM TEM MUITO LIXO E SEDIMENTOS
DURANTE A EXPEDIÇÃO, PESQUISADORES EXPLICARAM AS CONDIÇÕES DO TRECHO ENTRE CURITIBA E ARAUCÁRIA. OUÇA O ÁUDIO DA ENTREVISTA
