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União da Vitória mata a sede no Iguaçu
Em União da Vitória, uma das cidades históricas mais importantes ao longo do Iguaçu, a qualidade da água é motivo de preocupação. A Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) retira água bruta do próprio Iguaçu para abastecer União da Vitória e Porto União, em Santa Catarina. Com todo o efluente que é despejado nas águas do rio a partir de Curitiba, teme-se algum risco para a saúde dos moradores da região.
De acordo com as análises de água feitas por nossa equipe, a condutividade elétrica, que determina a quantidade de material em suspensão na água, caiu à metade antes do ponto de captação da Sanepar em União da Vitória. Isso em relação às medições anteriores. No entanto, a análise da água bruta feita pelo equipamento não especifica quais materiais orgânicos e inorgânicos podem estar presentes no rio, como metais pesados, fósforo e nitrogênio, entre outros.
“A água que distribuímos em União da Vitória está dentro das normas do Ministério da Saúde. Tem padrão de potabilidade e pode ser consumida”, garante Antonio Carlos Gerardi, gerente geral da Sanepar para a região Sudeste. Segundo ele, o tratamento de água feito na cidade é convencional. As análises feitas pela empresa estão disponíveis no site www.sanepar.com.br.
Riscos
Entre os riscos apontados por especialistas em relação à captação de águas que já receberam efluentes é a existência de substâncias potencialmente prejudiciais, como os trihalometanos (THMs), que são compostos cancerígenos. De acordo com o químico industrial e gerente de distribuição da Sanepar, Agenor Zarpelon, não há indícios de THMs na água tratada de União da Vitória.
Segundo o especialista, não há condições para a formação dessas substâncias, pois elas dependem da existência de ácidos provenientes da decomposição de material orgânico vegetal, além de cloro. Os trihalometanos, diz Zarpelon, não se formam a partir do esgoto e o cloro residual das estações de tratamento da Sanepar em Curitiba é zero. Por precaução, a água de União da Vitória é pré-clorada com dióxido de cloro, que, segundo Zarpelon, inibe a formação de THMs.
No terceiro dia de viagem, a expedição chegou a Vila Palmira, distrito do município de São João do Triunfo, na divisa com a cidade da Lapa, a 120 km de Curitiba. O distrito já teve o status de município no início do século 20, mas foi anexado posteriormente a São João do Triunfo após o declínio da atividade econômica em torno da navegação do Rio Iguaçu. Isso ocorreu com o fim do ciclo da madeira e da erva-mate, que movimentou a economia local até meados da década de 1950. Palmira hoje sobrevive da agricultura e a pesca parece ser a única diversão das comunidades ribeirinhas e dos turistas que visitam a área próxima à balsa que faz a travessia entre São João do Triunfo e a Lapa.
É o caso do aposentado João Luiz Alves, de Ponta Grossa, que freqüenta há 20 anos o cais de Vila Palmira. Sempre que pode, ele e a esposa passam alguns dias na região. “A gente vem mais para passar o tempo. Nessas alturas, a poluição de Curitiba já não afeta”, diz Alves, que consome os peixes que pesca. Realmente, os níveis de oxigênio e turbidez da água indicam que o rio está melhor ali, segundo as análises. Em todo caso, Patrícia de Lima esclarece que para saber se a fauna não está comprometida por alguma substância tóxica, seria preciso analisar os peixes.
São Mateus
Por volta das 11 horas chegamos a São Mateus do Sul, outra importante cidade que se desenvolveu às margens do Iguaçu, graças à navegação e à vinda de imigrantes. No Parque Iguaçu, na beira do rio, repousa uma das relíquias do período da navegação: o vapor Pery, que foi reconstruído em 1997 e hoje virou atração turística.
Para quem vive na cidade, o Iguaçu é fonte de lazer e convívio social. “Tenho 33 anos e pesco aqui desde pequeno. Tomo água do rio e nunca tive problemas”, diz Marcio Zaki, morador da região. Claro que a poluição preocupa os habitantes da cidade. Alexandre Zaki, pai de Marcio, conta que os moradores fazem mutirões para retirar o lixo da água. “Quando deu a última enchente, o rio subiu e as árvores ficaram cheias de plástico”, conta Marcio, que culpa os turistas por deixar a cidade suja. Por outro lado, o grupo reconhece que há mais peixes hoje na região do que antigamente. “Fim de semana eu venho aqui direto, pego bagre, lambari, carpa”, enumera Adelmo Pereira.
Segundo Diogo Hungria, pesquisador da UFPR, a qualidade do rio é melhor ali do que em Vila Palmira. “Quando há um trecho como este, de lentidão do rio, ocorre a decantação da matéria orgânica”, explica o biólogo. No entanto, ele não recomenda beber a água sem tratamento.
Potinga
À tarde, visitamos a localidade de Fartura do Potinga, há 20 km do centro de São Mateus do Sul, na divisa com Santa Catarina. Por volta das 14h30, colocamos o barco na água. A intenção era medir a qualidade da água do Rio Iguaçu nos pontos antes e depois de ele receber as águas de dois importantes afluentes: o Negro (na margem esquerda, sentido Curitiba-Foz, vindo de SC) e o Potinga (margem direita, vindo do Paraná). O ponto de partida era a propriedade do agricultor Dimorvan Boscardin, “nascido e criado ali”, segundo ele próprio.
As poucas cabeças de gado que Boscardin possui pastam tranquilamente às margens do Iguaçu – o que é proibido por lei. No entanto, o agricultor tem uma boa área verde preservada e sempre retira o lixo que pescadores e turistas desavisados largam por ali. “A gente se conscientiza, mas não tem auxílio do governo”, reclama.
Márcio Guimarães, técnico em agropecuária da Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente de São Mateus do Sul, explica que há um trabalho de orientação dos agricultores da região, principalmente em relação ao uso correto de agrotóxicos e descarte adequado das embalagens. O problema é saber quem não está cumprindo a lei. “A secretaria tem um sistema de orientação, não de fiscalização. Isso cabe ao Instituto Ambiental do Paraná”, explica. Segundo ele, os agricultores recebem mudas de plantas nativas para recuperar as margens, mas não são obrigados a fazê-lo.
Medições
Após fazer seis medições de água debaixo de muita chuva, desembarcamos na altura do distrito de Paula Pereira, na travessia da balsa, entre Santa Catarina e o Paraná. “Encontramos um rio bem menos poluído. Diminuiu a matéria orgânica em suspensão, melhorando a qualidade do rio”, explica Diogo Hungria. Isso ocorre, segundo ele, por conta do volume de água do Negro e do Potinga, que aumentam a diluição da carga poluente do Iguaçu. Como as águas destes rios estão mais limpas, deixam a do curso fluvial principal também mais limpas. Por passarem por centros urbanos menos adensados, o Negro e o Potinga têm índices de clorofila menores, ou seja, sinal de menos esgoto na água.
No final da tarde, a expedição rumou para União da Vitória.
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