Daniel Castellano/Agência de Notícias Gazeta do Povo Imagem do Rio Belém, em Curitiba, afluente do Iguaçu. Destruição da mata que protege os rios está relacionada com a presença do homem
ESPECIAL: ÁGUAS DO AMANHÃ #5

Ocupação urbana é sinônimo de redução da mata ciliar

Dos 18 municípios do Alto Iguaçu, 14 têm menos da metade da proteção vegetal considerada ideal para rios de áreas urbanas 04/06/2011 14:57:47 JOÃO RODRIGO MARONI

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* Há algumas décadas, os rios eram considerados barreiras ao desenvolvimento das cidades e à mobilidade urbana. Por isso eram canalizados, retificados e desapareciam sob ruas e calçadas – como em Curitiba.

* Acreditava-se que canalizar rios evitaria enchentes. Não evita.

* A ausência de mata ciliar provoca desequilíbrios no ecossistema, destrói a paisagem, causa erosão das margens, assoreamento dos rios e ajuda a elevar a temperatura das cidades.

* Algumas cidades, como Seul, na Coreia do Sul, fizeram a renaturalização de rios, trazendo-os à forma original. Porém o processo é caríssimo.

Enquanto esquenta no país a discussão sobre o Código Florestal, cuja reformulação pode reduzir a faixa de mata ciliar obrigatória no entorno dos rios, a ausência da cobertura vegetal nos ambientes urbanos parece pouco chamar a atenção dos cidadãos comuns. Não raro, é difícil notar até os próprios rios. Muitos deles, como o Belém e o Ivo – para ficar em dois exemplos curitibanos – estão literalmente embaixo da terra.

O levantamento feito pelo Águas do Amanhã, com base em dados da Comec e do AguasParaná, mostra que quanto maior o adensamento populacional, menos mata ciliar há ao redor dos rios urbanos – 30 metros de cada lado, considerando o que manda o Código Florestal para rios de pequeno porte, como os do Alto Iguaçu. Curitiba, com seus 1,8 milhão de habitantes, é a campeã do desmatamento, com apenas 21% de remanescentes de mata ciliar da área considerada ideal. O município de Pinhais, com 24% de remanescentes, também se destaca negativamente.

Suprimida

De acordo com Ana Sylvia Zeny e Cecile Miers, a própria ocupação urbana fez com que a mata ciliar fosse suprimida. Além disso, fora as áreas de invasão, existem os condomínios que, mesmo depois de regularizados, acabam desmatando mais do que deveriam. Para as especialistas, é difícil recuperar uma situação como a de Curitiba, por exemplo, onde muitos rios foram “enterrados”. “Se fosse para reverter, teríamos que botar metade da cidade no chão”, pontua Ana Sylvia.

O engenheiro ambiental Eduardo Gobbi, diretor de Recursos Hídricos e Atmosféricos da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, por sua vez, acredita ser possível recuperar algumas áreas, apesar dos custos serem elevados. “Dá para fazer coisas legais, melhorar os fundos de vales e criar corredores ecológicos urbanos para, ao menos, termos o fluxo de pássaros e sementes, e criar um espaço agradável na cidade”, pondera.

Segundo Gobbi, é preciso identificar áreas em beiras de canais e rios onde é possível criar parques. Conforme explica o engenheiro, isso está previsto no plano de macrodrenagem da bacia do Alto Iguaçu, inclusive com a criação de “piscinões” nessas áreas para reduzir a probabilidade de alagamentos.

Para Antonio Ostrensky, coordenador técnico do Águas do Amanhã, não é por falta de legislação que chegamos à atual situação. De acordo com ele, reverter o processo de devastação tem um preço e a sociedade precisa decidir se está disposta a arcar com ele. “O Rio Tâmisa, na Inglaterra, hoje está despoluído. Não estou dando exemplos do Senegal ou da Nigéria. Em termos de desenvolvimento, como país, estamos no meio do caminho. Queremos ser Senegal ou Inglaterra?”

 

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